Os sons, que produziam picadas em meus tímpanos, continuam hoje a roubar-me a paciência.
Primeiro foram os tiros, depois a sirene, os gritos dos policiais e a ambulância gritando até mim.
Os tiros. Sim, deles me lembro bem: foram tão próximos que poderia tê-los agarrado antes de saírem do revólver. Mas não, deixei-os impunes.
Foram três: dois na cabeça e um perdido no espaço tempo da Avenida Nove de Julho.
Foram três também aqueles que me socorreram: dois travestis e um moleque (esse levou minha carteira). Os travestis soltavam gritinhos de pavor ao ver meus miolos escorrendo na calçada.
Até alguém procurar uma ambulância, os ecos (três?) corriam alucinados e ignorantes dos efeitos sonoros que produziam em cada prédio.
As luzes aproximavam-se. Umas vermelhas insistiam nas retinas como se só elas existissem. Mal sabem elas que a virgindade das cores, o Branco a levou. Sim, o Branco as violou em plena esquina, sem consultar seu Rolex. Não há tempo para a violação, sempre repetiu-me.
Preto!!
Um era preto – falou um travesti – Eram dois, um era preto, preto, preto...preto.
Lancei-lhe uma advertência: Bhá, Bhá...Bhá
- Está falando!
- Está vivo!
- Cadê a ambulância ?
Nunca tinha visto meus miolos. Talvez tenha até QI alto. Eles são cinza. Cinza e retorcidos. Mas um era preto!
- Onde está?
- Cadê o preto?
O Caminhão da Coca Cola passou devagar me examinando multinacionalmente, indagando se perderia um consumidor em potencial.
Errou.

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