quinta-feira, outubro 28, 2010

Dia do Amor Acabar

Volta para casa mais cedo
Barbeio-me e me faço belo

É o dia do amor acabar

Visto minha melhor roupa
Calço o sapato mais brilhante

É o dia do amor acabar

Tomo a cachaça mais forte
Pego o ônibus mais cheio

É o dia do amor acabar

Respiro o sujo ar da Paulista
Olho, como um peixe, os luminosos

O dia já se vai, eu chego

Bebo mais uma coragem
Destilada em Pirassununga

É o dia do amor acabar

Ela chega, a coragem se vai
Ela me olha, me beija

A coragem volta
Úmida língua

Digo curto e seco
Como o sertão

O dia do fim do amor chegou

É hora de arrumarmos as malas
E seguirmos novas estradas

Que prosseguirão até as lágrimas
Desatadas rolando pelo chão

Mas o amor é como o mar

Tem toda sua grandeza
Para nos acolher

Tem toda sua solidão
Para todos afogar

Tem todo o seu mistério
Para não o decifrarmos

Tem toda a profundidade
Para todo amor afogar

Já muito navegamos este mar
Quais astronômicos corporais

Portos inseguros
Luares em lençóis imundos de hotéis

Resistências nunca encontradas
Em teus braços acolhedores

Ondas que embalavam nossos corpos
Nas tempestades da madrugada

As âncoras tu mesmo levantastes
A partida foi em teu destino

Mas a chegada não foi realizada
Pois as bússolas do amor falharam

Falharam na escolha da rota
Falharam na escolha do mar

Navegamos este mar em sentido contrário
Ao do mapa do amor

Se do sexo fizemos a partida
Da compreensão fizemos a chegada

E a rota foi a contínua satisfação
Tua, e também minha

Mas não percebemos os desvios
E aportamos em terras escuras

Onde a insegurança pessoal
E a distância temporal

Eram frutos abundantes
Nas árvores do vale do fim

Como Robson Crusoé
Como Sexta Feira, a 13

Fizemos reparos em nosso barco
Cansados da longa viagem

Mas nem todos os remendos
São estanques ao amor

E este vazou, aos poucos
Alagando o vazio dos corações

Adernando, sem direção
Nosso barco só poderia naufragar

E justo no dia
Do fim do nosso amor
A bandeira branca hasteada
Pedia socorro aos peixes





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