Volta para casa mais cedo
Barbeio-me e me faço belo
É o dia do amor acabar
Visto minha melhor roupa
Calço o sapato mais brilhante
É o dia do amor acabar
Tomo a cachaça mais forte
Pego o ônibus mais cheio
É o dia do amor acabar
Respiro o sujo ar da Paulista
Olho, como um peixe, os luminosos
O dia já se vai, eu chego
Bebo mais uma coragem
Destilada em Pirassununga
É o dia do amor acabar
Ela chega, a coragem se vai
Ela me olha, me beija
A coragem volta
Úmida língua
Digo curto e seco
Como o sertão
O dia do fim do amor chegou
É hora de arrumarmos as malas
E seguirmos novas estradas
Que prosseguirão até as lágrimas
Desatadas rolando pelo chão
Mas o amor é como o mar
Tem toda sua grandeza
Para nos acolher
Tem toda sua solidão
Para todos afogar
Tem todo o seu mistério
Para não o decifrarmos
Tem toda a profundidade
Para todo amor afogar
Já muito navegamos este mar
Quais astronômicos corporais
Portos inseguros
Luares em lençóis imundos de hotéis
Resistências nunca encontradas
Em teus braços acolhedores
Ondas que embalavam nossos corpos
Nas tempestades da madrugada
As âncoras tu mesmo levantastes
A partida foi em teu destino
Mas a chegada não foi realizada
Pois as bússolas do amor falharam
Falharam na escolha da rota
Falharam na escolha do mar
Navegamos este mar em sentido contrário
Ao do mapa do amor
Se do sexo fizemos a partida
Da compreensão fizemos a chegada
E a rota foi a contínua satisfação
Tua, e também minha
Mas não percebemos os desvios
E aportamos em terras escuras
Onde a insegurança pessoal
E a distância temporal
Eram frutos abundantes
Nas árvores do vale do fim
Como Robson Crusoé
Como Sexta Feira, a 13
Fizemos reparos em nosso barco
Cansados da longa viagem
Mas nem todos os remendos
São estanques ao amor
E este vazou, aos poucos
Alagando o vazio dos corações
Adernando, sem direção
Nosso barco só poderia naufragar
E justo no dia
Do fim do nosso amor
A bandeira branca hasteada
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