segunda-feira, outubro 25, 2010

Pedaços de uma Carta

De lembranças curtidas
Sejam tuas ou não
Já sou composto

E uma certeza maior
Levanta-se sobre outras
Como um Líder cruel

Ordena-me a seguir
Por uma vida nômade
Procurando uma Terra
Uma talvez prometida

Promessas não tenho
Na bagagem, só realidades

De uma escola inquieta
Que eu não sei se gosto
Se a devoro ou a abandono

De um amor desvairado
Que sinto por ti

Sou uma ovelha longe demais
De seu rebanho, este sem pastor

Procuro a verdade
Do conhecimento

Procuro a clareza
Da alma humana

Procuro um amor
Sem medo ou negações

Procuro uma rota
Um farol, uma ilha

Iluminando um corpo

Corpo que seja apenas meu
Vivo ou morto, latente
Convulsionado, epilético

Mas que seja o meu

Procuro uma trilha
Neste sertão ardente

Sem ranchos ou sítios
Sem varandas ou açudes
Sem redes ou cafunés

Onde se enterrou um corpo

Corpo que seja apenas meu
Renegado, alucinado
Devorado e rejeitado

Mas que seja o meu

Uma besta apocalíptica
Conduz a breve resposta
“Onde estou estará a Verdade”

A verdade de Dante
Vinda dos Infernos

A Verdade dos cabarés
Vinda das sifilíticas

A Verdade de um ovo
Conduzindo a galinha

Eterno nas formas
Abominável por ser oval

A Verdade do equilíbrio
Das cinco luas terrestres

Modificando um sonho
Transtornado na madrugada

Das noivas sem véus
Das cabaças vazias no rio

A Verdade de um coqueiro
Abraçando seu tronco, suas palmas

Aconchegando uma sombra leve
Num mar revolto pelo sol

A Verdade da inocência
Das crianças inacabadas
Feitas de sangue e placenta

A Verdade dos jornais
Trazidos na reportagem
De um Poeta sem emprego

A Verdade das escrituras
Tão vulgares que são sagradas
Eleitas assim a serem imortais

Não !!
Desisto de ser Eu !!!

Quero ser uma sonata
Escrita por Beethoven

Ouvida num parque colorido
Cheio de lindas crianças
Todas calmas e surdas

Ou mesmo um quadro a óleo
Pintado por El Greco

E ser exposto num salão
Majestoso de ouro brilhante
Para que os cegos me vejam

Quero ser uma loucura
Acometida de prazer

Sendo assim nessas horas
A caneta repousará
Deixando apenas murmurando
Um Poema de Neruda

Sendo assim no toque
Do telefone ou campainha
Sairei pela garganta
Saltarei pelos olhos

E te direi: Não

Mas não te preocupes
Nada sou ou serei
Nada fui também

Apenas não gostes de tudo
Que escrevo quando de ressaca

Nem tudo é verdade
Nem tudo é mentira

Mas procure nos Poemas
Não a rima inexistente
Nem a métrica conseqüente

Procure as sutilezas
Que me levam a fugir
Da realidade e voar

Mesmo na Sonata em Dó Menor
Op. 13, “Patética” do Gênio
Não procures a razão da fuga

Se puderes me prender
Numa gaiola de beijos
Numa renda de abraços
Num leito, nossa alcova

Eu permitiria tua presença

Levantar-te-ía do chão
Soprando em teus lábios
Pétalas de Poemas-Teus

Esperando tua vontade
Desejaria teu colo só meu
Bebendo dele o Néctar
De uma só Deusa d’amor

Metamorfosearia nosso
Passado, presente e futuro
Deixando-os presos nas pernas
Nos braços, nos sexos

Podes prender-me sim !!!

Basta um amor como o meu
Os dois não nos desejariam
Junto, poderíamos morrer

Morrer primeiro em: Allegro com Brio
E depois: Largo

Não queres ?

“Morrer não é muito novo, e viver não traz novidade alguma”

Não sou
Teu dono nem Senhor

Não sou
Teu Amado, nem Amor

Sou, antes de mim
Teu grande Amigo
Algo bem assim

“Não te castigo
Não te mereço
Em ti reconheço
Parte de uma vida
És reconhecida
Por um coração
De Poeta, talvez
Sem imaginação
Te amou outra vez

Amou um amor diferente
Amou um amor distante
Mas sempre foi constante
Não chorou um instante”

Sorriu, beijou tua foto bela
E disse:

Estou de porre
Por causa dela
Mas de saudade
Ninguém morre
Sem maldade
Brincam comigo

É Amigo
Dor da distância
É passageira
Uma infância
Que voa ligeira

Já vem Agosto
Com o gosto
De seus beijos

São teus desejos
São teus gracejos

Meu Amigo
Meu castigo

Não tem mistério
Amigo meu
Sou mesmo Eu
 
De bebedeira
Fiz esta brincadeira
 
Não me leves a sério.....



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