Depois de abandonar o suicídio
Resolve somar mais uma vida
Àquela que tentou acabar
Semana da Pátria carrega
Um batalhão de suicidas
Em ordem unida desfilam
Batendo continência à Morte
Tentou acordar noutra vida
Pensando em dormir morto
Semana da Pátria trouxe Olenir
Com seu canto, com seu violão
Descobriu nela sinais d’amor
Escondido dos meses de Maio
Não o beija nem o quer
Não quer trair Helena
Semana da Pátria sozinho
Lembra a Semana Santa
Vai ao CRUSP almoçar e Jantar
Conhece a japonesa Márcia
Lembra a Míriam
Libertina e sensualista
Mas não há céu ensolarado
Não há céu estrelado lá
Tente Vida, tente Vida
Afugentar o desejo mortal
Vida, cadê tua razão ?
O Motivo para viver ?
É covarde, quer saltar
A Janela o chama sem dó
Escreve então o Poema
“O Suicida”
É um alívio
Morre nos próprios versos
Descobre o motivo da vida
É o amorelena de hoje
Falha no sentido de amar
Não a ama como ela quer
Mas do sexto andar a morte
É ainda incerta e muito lenta
Ah, mas hoje ele está bem
Faz a janta no apartamento dela
Ela no sofá tocando flauta
Ele na mesa estudando, a ama
Sente-se mais verdadeiro
Abraça e a beija como nunca
Seu beijo lhe traz dúvidas
Tem gosto de beijo derradeiro
No Sábado o Poeta faz prova
Ela o encontra na Física
Ela vem e lhe diz
Que o fim é hoje
Não consegue responder
Foi muito bom, ontem
No apartamento, de porre
Percebe que é o fim mesmo
Domingo na ressaca não liga
Curte uma paz só do Bixiga
Não se dá conta
Que tudo acabou
Segunda chega desesperada
Traz desconfiança e medo
Vem Segunda traz a verdade
Vem dizer que tudo acabou
Passa Segunda e ele triste
Vem a louca Terça Feira
Noite chega, ela vem a Kit
Devolve todos os presentes
Devolveu Madame Bovary
Devolveu Carlos Drummond
Poeta bobo, bobo novamente
Poeta bebo, bebo novamente
Ah, desta vez ela morreu
É mais um desamor no Poeta
Ele a juntou na velha pasta
Às cartas antigas e mofadas
Rasgou sua carteira da USP
Jogou-a no chão do Rei das batidas
Vem então a Quinta amarga
Ela volta a sua alcova
Beija o Poeta pesadamente
Salgadamente e se vai
O Poeta fica
Fica só outra vez
O Poeta morrendo
Pulando janelas
Bebendo venenos
Escreve uma despedida
Faz sua Ode à Morte
Ele não morre
Ela não morre
Morreram as cartas perdidas
Morreram os poemas rasgados
Nascimento, vida e morte
Amor, desamor, ex-amor
Não faz diferença
A Vida não merece
O Poeta não merece padecer
O Poeta não merece sofrer
Levou a pior com razão
Não vale a pena amar
Evita encontrá-la
Evita procurá-la
Não a quer novamente
Desterra o seu amor
Banido e sem pátria
Seu coração entristece
Não tem visto de saída
Passaporte está cancelado
Chorando, desterrado e ilegal
O coração se fecha, esconde-se
Ficará doravante no exílio
De qualquer terra distante
Tão longe quanto seu desamor
Tão incerta que é no Bixiga
Fica apenas a esperança
Dum visto de regresso
Assim o Poeta toma o primeiro voo
Assim ele embarca no próximo navio
E quem sabe na volta

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