segunda-feira, outubro 25, 2010

Poema para o Poeta

Depois de abandonar o suicídio
Resolve somar mais uma vida
Àquela que tentou acabar

Semana da Pátria carrega
Um batalhão de suicidas

Em ordem unida desfilam
Batendo continência à Morte

Tentou acordar noutra vida
Pensando em dormir morto

Semana da Pátria trouxe Olenir
Com seu canto, com seu violão

Descobriu nela sinais d’amor
Escondido dos meses de Maio

Não o beija nem o quer
Não quer trair Helena

Semana da Pátria sozinho
Lembra a Semana Santa
Vai ao CRUSP almoçar e Jantar
Conhece a japonesa Márcia

Lembra a Míriam
Libertina e sensualista

Mas não há céu ensolarado
Não há céu estrelado lá

Tente Vida, tente Vida
Afugentar o desejo mortal

Vida, cadê tua razão ?
O Motivo para viver ?

É covarde, quer saltar
A Janela o chama sem dó

Escreve então o Poema
“O Suicida”

É um alívio
Morre nos próprios versos

Descobre o motivo da vida
É o amorelena de hoje
Falha no sentido de amar
Não a ama como ela quer

Mas do sexto andar a morte
É ainda incerta e muito lenta

Ah, mas hoje ele está bem
Faz a janta no apartamento dela

Ela no sofá tocando flauta
Ele na mesa estudando, a ama

Sente-se mais verdadeiro
Abraça e a beija como nunca

Seu beijo lhe traz dúvidas
Tem gosto de beijo derradeiro

No Sábado o Poeta faz prova
Ela o encontra na Física

Ela vem e lhe diz
Que o fim é hoje

Não consegue responder
Foi muito bom, ontem
No apartamento, de porre
Percebe que é o fim mesmo

Domingo na ressaca não liga
Curte uma paz só do Bixiga

Não se dá conta
Que tudo acabou

Segunda chega desesperada
Traz desconfiança e medo

Vem Segunda traz a verdade
Vem dizer que tudo acabou

Passa Segunda e ele triste
Vem a louca Terça Feira

Noite chega, ela vem a Kit
Devolve todos os presentes

Devolveu Madame Bovary
Devolveu Carlos Drummond

Poeta bobo, bobo novamente
Poeta bebo, bebo novamente
Ah, desta vez ela morreu
É mais um desamor no Poeta

Ele a juntou na velha pasta
Às cartas antigas e mofadas

Rasgou sua carteira da USP
Jogou-a no chão do Rei das batidas

Vem então a Quinta amarga
Ela volta a sua alcova

Beija o Poeta pesadamente
Salgadamente e se vai

O Poeta fica
Fica só outra vez

O Poeta morrendo
Pulando janelas
Bebendo venenos

Escreve uma despedida
Faz sua Ode à Morte

Ele não morre
Ela não morre

Morreram as cartas perdidas
Morreram os poemas rasgados

Nascimento, vida e morte
Amor, desamor, ex-amor

Não faz diferença
A Vida não merece

O Poeta não merece padecer
O Poeta não merece sofrer

Levou a pior com razão
Não vale a pena amar

Evita encontrá-la
Evita procurá-la

Não a quer novamente
Desterra o seu amor

Banido e sem pátria
Seu coração entristece

Não tem visto de saída
Passaporte está cancelado

Chorando, desterrado e ilegal
O coração se fecha, esconde-se

Ficará doravante no exílio
De qualquer terra distante

Tão longe quanto seu desamor
Tão incerta que é no Bixiga

Fica apenas a esperança
Dum visto de regresso

Assim o Poeta toma o primeiro voo
Assim ele embarca no próximo navio

E quem sabe na volta
Encontra um novo amor....



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