domingo, outubro 31, 2010

Eleição

Saio de moto
meio tarde

Vou para o Interior
Para longe de ti ficar

A Ricardo Jafet
A Bandeirante
Cheias de pró-Serras

Trânsito demais
Vou entre os carros
Olhando caras apressadas

Votar e correr para o Mar
Votar e fugir da realidade
Diária dos batalhadores da vida

Passo entre os carros
Tenho pressa

Pressa de viver
180, 200, 220
Tudo é pouco para Morrer
Na vida dominical

Chego a Jundiaí
Passo Campinas
Paro para um Expresso
Penso em você

Vida expressa
Lento o esquecer

Acendo o cachimbo
Penso em Você

Que adianta a fuga
Se o desejo é voltar
Se o desejo é te encontrar

Serristas no Café
Dilmistas na estrada

Chuva vem
Chuva não cai

Penso em Você
Nesta eleição

Não votas como eu
Não voltas como eu

Penso que sempre será assim
Na eleição da vida
Derrotado
Perdi Você


quinta-feira, outubro 28, 2010

Faces da Lua

De vez em quando te desejo
Na volta da lua cheia

A cada encontro noturno
No teu apartamento cheio

Tenho sensações diferentes
Como se nunca te conhecesse

Devo explicar este desejo
Mesmo nas tuas diferentes faces

As faces da lua e a bela volta do luar

Se teus olhos me pedissem
Para ficar
Eu ficaria

Se teus braços me acolhessem
Com imenso prazer te abraçaria

E se me pedisses
Para amar
Com imenso luar te cobriria

Depois amanheceríamos
Como a lua, em nascente
Em quarto crescente




Os Três







Dois caminhos a seguir
Um já vindo de longas jornadas

Outro é nova estrada
Já foi trilha incerta
Não é mais

O destino obriga a decidir

Não me encontro
Divido-me em três
Número fantástico do destino

Um
Sou homem maduro para amar

Dois
Sou aquele que pensa nada ser

Três
Sou a mistura de corações, sexos e mulheres
Dizendo aos outros dois que a vida é inexplicável
Que o propósito da vida não é a felicidade e sim a experiência

Infância



Os meninos brincalhões
Correm pelos salões

Atrás de uma vida alegre
Crianças, meninas e moleques

Afoitos no pega-pega
Roçam os corpos rapidamente

Mas no curto espaço de tempo
A energia os arrepia

Depois, o esconde-esconde
Cada um com o seu

O esconderijo mais escondido
O mais apertado e conhecido

Lá os corpinhos se aquecem
E as crianças se esquecem

De se esconder
Ficam com os corações a palpitar

Entre suspiros a arredios
E a vontade de crescer rapidamente

Generalíssimo

Dos túmulos saíram os ossos
Estavam brancos e empoeirados

Eram do Generalíssimo
No peito as condecorações brilharam

Era como se tomassem vida ao sol
Ofuscaram meus olhos

Abrimos o saco plástico
Jogamos o Generalíssimo lá

O povo observava em silêncio
As mãos crispadas, imóveis

As mães com seus filhos
Olhavam em filas imensas

Passados vinte anos
A cova foi novamente aberta

Desta vez para desenterrar
E não para sepultar

Abrimos a cova
Enterramos a história

Dia do Amor Acabar

Volta para casa mais cedo
Barbeio-me e me faço belo

É o dia do amor acabar

Visto minha melhor roupa
Calço o sapato mais brilhante

É o dia do amor acabar

Tomo a cachaça mais forte
Pego o ônibus mais cheio

É o dia do amor acabar

Respiro o sujo ar da Paulista
Olho, como um peixe, os luminosos

O dia já se vai, eu chego

Bebo mais uma coragem
Destilada em Pirassununga

É o dia do amor acabar

Ela chega, a coragem se vai
Ela me olha, me beija

A coragem volta
Úmida língua

Digo curto e seco
Como o sertão

O dia do fim do amor chegou

É hora de arrumarmos as malas
E seguirmos novas estradas

Que prosseguirão até as lágrimas
Desatadas rolando pelo chão

Mas o amor é como o mar

Tem toda sua grandeza
Para nos acolher

Tem toda sua solidão
Para todos afogar

Tem todo o seu mistério
Para não o decifrarmos

Tem toda a profundidade
Para todo amor afogar

Já muito navegamos este mar
Quais astronômicos corporais

Portos inseguros
Luares em lençóis imundos de hotéis

Resistências nunca encontradas
Em teus braços acolhedores

Ondas que embalavam nossos corpos
Nas tempestades da madrugada

As âncoras tu mesmo levantastes
A partida foi em teu destino

Mas a chegada não foi realizada
Pois as bússolas do amor falharam

Falharam na escolha da rota
Falharam na escolha do mar

Navegamos este mar em sentido contrário
Ao do mapa do amor

Se do sexo fizemos a partida
Da compreensão fizemos a chegada

E a rota foi a contínua satisfação
Tua, e também minha

Mas não percebemos os desvios
E aportamos em terras escuras

Onde a insegurança pessoal
E a distância temporal

Eram frutos abundantes
Nas árvores do vale do fim

Como Robson Crusoé
Como Sexta Feira, a 13

Fizemos reparos em nosso barco
Cansados da longa viagem

Mas nem todos os remendos
São estanques ao amor

E este vazou, aos poucos
Alagando o vazio dos corações

Adernando, sem direção
Nosso barco só poderia naufragar

E justo no dia
Do fim do nosso amor
A bandeira branca hasteada
Pedia socorro aos peixes





Fada

Quando meu amor me diz
Que já não a faço feliz

É porque a água do tempo
Apagou a nossa fogueira

Mas o meu único lamento
É saber que minha companheira

De mim já está cansada
E agora, em minha frente calada

Olha-me com olhar de fada
Tentando novamente hipnotizar

Maneiras diferentes de chorar
A morte de mais um amor

É como evitar-se do sol correr
E a noite querer o seu calor

Mas as amantes brilham na noite
Onde os sexos estão a morrer

Se a noite traz um doce açoite
O amor que se vai é grande

E nenhuma notícia me mande
Pois só o tempo que me faz infeliz

Será o tempo de uma nova plantação
É só amar e sangrar o coração


Ciclo da Colheita

Pensar e repassar a limpo
O borrão do nosso caso

Um caso que tomou rumos errados
Onde o sexo era um plano feroz

Rasgamos nossas carnes
Desde antes de começar o amor

O amor cresceu entre dias pré-menstruais
Entre preservativos rasgados e lençóis manchados

O sexo semeia o amor
O amor rega o sexo

E o ciclo da colheita se fecha

Mas não te satisfaço, ou não me satisfazes ?

Não importa
Os problemas da cama passam aos corações




Desmoronamento

O lamento
Tomou conta dos pássaros

Nossa construção
Desmoronou com estardalhaço

Todos os tijolos
Eram de cristais

Não resistiram
Às fortes vibrações

Após baixar a poeira
Olhei ao redor

Vi apenas fantasmas

Descobri que estou
Impregnado do teu passado

Não só teu,
Pois também construído por mim

E são os fantasmas
Que me rondam

Estão a me perguntar
Por quê ?



Tua Solidão e Meu Desejo

Tua solidão toca minha alma
Sou levado da compaixão ao desejo

Perco o sentido das idéias
Que, se antes navegavam
Em rumo certo, quando te vejo
Perdem-se nas noites dos desejos

Ah,
Que vontade de te prender
Entre meus braços e te jogar na cama

Ah,
Que vontade de te possuir
Como quem possui as estrelas

Continuar te amando
Até a lua se despedir
E o sol nos dizer bom dia

Vejo-te nas noites
Quando tua solidão é tão palpável
Quanto tuas coxas que se mostram
Na abertura da saia

Olho teus olhos
Para saber o que pensa tua alma

Vejo-te nua como te mostras
Aos meus olhos de desejos mundanos

Depois, o céu cinza pela manhã
É o reflexo de minha noite não satisfeita

Passa o dia
Novamente tua solidão vem como um véu
Escurecendo minha razão

Volta-me o desejo
Espero mais uma noite chegar


Amazona

Disfarço o olhar
Desfaço o feitiço

Que é te amar
Quando perscruto tua alma

Abro os braços
Para te alcançar
Enquanto dormes

Assumo
Durante teus sonhos
A posição de sentinela

Sou escudeiro
De uma Amazona
Muito especial

Que me monta
E me cavalga
Até o romper do dia



Força Fraca

Até onde chega
A loucura insana do amor ?

Será que tal sentimento
Não passa de sentidos animais ?

O ser consciente
O ser espiritual
Não deseja o mal a ninguém

O único desejo que tenho
É trazer felicidade a todos

Ah,
De onde vens infelicidade ?

Por que sempre chegas antes
Do amor ?

Sei que são bi polos
De uma mesma força

Esta força que faz
Brilharem olhos e sorrisos

Que faz rolar
A mais amarga lágrima

Que faz desatar
O mais prolongado pranto




Lagoa Santa

Encanto-me com a Lagoa
Na chegada da primavera

Floriam acácias em suas margens
Extasiando meus sentidos

Do sol
Refletido nas copas dos jacarandás
Vinha o canto dos sabiás

Procurando galhos seguros
Para novas vidas edificar

Guiados por espíritos grupais
Suas asas são instrumentos do amor

Desenhando
Sobre a água cristalina
Uma estrela no céu

Acorrentado

Caminho até você
Percorrendo noites sem luar

Apalpando pedras
Tateando sem rumo
Até chegar

Abatido e suado
Sinto as luzes

Primeiro o azul
Indicando-me teus olhos

Depois o rubro
Mostrando teus lábios

Por fim o branco
Prendendo meu espírito
Acorrentando meu coração
Ao teu amor



O Mestre

A sabedoria dos gestos
Símbolos e palavras

O Hierofante
É todo áurea do saber

Quando ele fala
O silêncio se cala

As palavras cortam
Como uma espada
O ar e nossas ideias

O seu olhar
Acompanha as palavras dando-lhes alma

E ao ouvirmos
Sentimos vibrar a sabedoria infinita

Emanada apenas do verbo autêntico

Agente direto
Da vontade secular
Paciente da sabedoria decifrada pela razão

Dele apenas podemos obter as chaves
Dos setes cadeados
Que separam o vulgo do sábio

Seu trono é singular
Seu reino é a paz

Seu poder emana do nada
E se afirma pelo verbo saber


Sol

Ah, o Sol

Abraçado ao amor terrestre
Sob sua luz
Caindo em chuvas
Para nos alegrar

Sinto sua força
Que penetra
Vibrando minhas moléculas
Em todas as direções

Como um mar
Suas ondas
Batem sobre nós

Ao olhar os olhos
Do Sol
Não identifico
Sua expressão

Talvez seja alegre
Para nos seduzir
Tão facilmente como faz

Basta
Alguns dias de nuvens
Para nos entregarmos
Com volúpia
Quando ele aparece

Senhor dos senhores
Do céu

Senhor de sua amante
Nossa mãe Terra

Somos filhos desta união estelar
Somos vibrantes
Filhos do Sol



Voo

O mundo aos seus pés nada significava

Se a força natural
Era tão pouca
Por que voar tão alto ?

Não era nem Leão
Nem tão pouco Águia
Para voar nas alturas
Esquecendo-se de por
Os pés no chão

Tão alto voava
Que atingiu os céus

Até os Anjos vieram ao seu lado voar

As nuvens corriam dos Anjos sorridentes
Até ocultar o Touro, que com seus chifres fortes
Tentava em vão furá-las

Mas ela era
Em sua nudez
Tão dona de si
Que brincava entre louros

Como Rainha coroada
Que ao seu reino não necessitava voltar

E os Vulgos quando tentavam vê-la
Mais alto ela voava

Agora, em círculos pela Terra
Apenas podemos aprender com ela
A voar alto nos céus
Sem tirar os pés da Terra