terça-feira, fevereiro 26, 2019

A Tempestade

A Tempestade


A parada em Registro depois de 4 horas é uma oportunidade de esticar as pernas e tomar um café para despertar a parte do cérebro que estava adormecida.

Do Graal podem-se ver as nuvens carregadas, escuras como o Café, indicando que uma feroz tempestade será uma companheira para o restante da viagem. Observando com mais detalhe, parecem ser cúmulo-nimbos, com um perfil vertical e emanando muitos raios e relâmpagos.

Pensar que esta tempestade será diferente de todas as outras já enfrentadas provoca uma certa apreensão e imaginar-se abrindo o portão de casa em São Paulo é um conforto antes de seguir viagem.

Logo depois de sair do Graal, o primeiro impacto é sentido: as rajadas de vento jogam o carro lateralmente, como uma grande mão brincando com ele. Trinta quilômetros mais e um diluvio desce dos céus acompanhado de granizo e raios que cegam momentaneamente como que caindo em frente ao carro. O final do entardecer termina repentinamente e a noite chega sem pedir licença.

Sair da Regis e entrar para a Padre Manuel da Nobrega é difícil decisão. Onde é melhor enfrentar esta tempestade? Talvez pela Baixada Santista seja melhor que cruzar São Paulo no final da Regis.

Nos primeiros quilômetros sente-se a sua força. As árvores dobram-se e galhos voam pela estrada, como pedestres bêbados cruzando a pista

Os limpadores não vencem a chuva torrencial e tornam-se coadjuvantes da impotência dos motoristas incautos que seguem em frente, a dez quilômetros por hora, procurando por uma faixa- do meio da pista ou lateral, que ajude a não sair da estrada.

Três corajosos motoristas seguem, talvez sem opção de voltar, com os pisca-alertas ligados, buscando, talvez, uma boa razão para não desistirem e entregarem-se à Tempestade.

Antes de Peruíbe, várias arvores que sucumbiram aos ventos estão desafiadoramente deitadas na pista, algumas caindo em frente ao comboio dos corajosos.

O trajeto que leva normalmente uma hora, é feito em longas três horas, que travam as pálpebras e aguçam os sentidos para estar totalmente alerta e focado em não sair da pista. Os ouvidos zumbem, talvez pela falta de outro som que não seja o bater da chuva e os trovões.

Os clarões dos relâmpagos e raios cegam na escuridão e algumas curvas são feitas com algumas rodas no acostamento e passando por galhos caídos.

A quase reta de Peruíbe até Praia Grande é uma piscina, onde carros aquaplanam, como nadadores inexperientes. Melhor seria se anfíbios fossem.

A Imigrantes é um rio com correnteza contrária ao fluxo dos veículos. As motos sumiram da estrada, talvez estejam em algum local protegendo-se das rajadas do vento.

No planalto da Imigrantes vários carros param, aguardando uma melhora da Tempestade que não chegará. Um longo comboio segue a menos de dez quilômetros por hora. Pelo menos as marcações das pistas são quase visíveis e servem de guia para os ainda Corajosos Motoristas.

Talvez por estar sendo atrasada pela Serra do Mar, a Tempestade ainda não atingiu São Paulo. 

Abrir o portão e entrar na garagem parece o final de uma maratona – os músculos retesados já não possuem energia para serem dobrados. Os esternocleidomastoideos retesados pedem por mãos macias massageantes.

A Natureza demonstrou nesta Noite que o ser humano e sua máquina não podem derrota-la e sim aceita-la e sobreviver aos seus ímpetos.

Na longa ducha quente, recompor a consciência e aceitar este fato.



Um comentário:

Anilda Fonseca disse...

Olá, que texto incrível, me senti na estrada,em plena tempestade! Parabéns
Anilda Fonseca