A Tempestade
A
parada em Registro depois de 4 horas é uma oportunidade de esticar as pernas e
tomar um café para despertar a parte do cérebro que estava adormecida.
Do
Graal podem-se ver as nuvens carregadas, escuras como o Café, indicando que uma
feroz tempestade será uma companheira para o restante da viagem. Observando com
mais detalhe, parecem ser cúmulo-nimbos, com um perfil vertical e emanando
muitos raios e relâmpagos.
Pensar
que esta tempestade será diferente de todas as outras já enfrentadas provoca
uma certa apreensão e imaginar-se abrindo o portão de casa em São Paulo é um
conforto antes de seguir viagem.
Logo
depois de sair do Graal, o primeiro impacto é sentido: as rajadas de vento
jogam o carro lateralmente, como uma grande mão brincando com ele. Trinta quilômetros
mais e um diluvio desce dos céus acompanhado de granizo e raios que cegam
momentaneamente como que caindo em frente ao carro. O final do entardecer
termina repentinamente e a noite chega sem pedir licença.
Sair da Regis e entrar para a Padre Manuel da
Nobrega é difícil decisão. Onde é melhor enfrentar esta tempestade? Talvez pela
Baixada Santista seja melhor que cruzar São Paulo no final da Regis.
Nos
primeiros quilômetros sente-se a sua força. As árvores dobram-se e galhos voam pela
estrada, como pedestres bêbados cruzando a pista
Os
limpadores não vencem a chuva torrencial e tornam-se coadjuvantes da impotência
dos motoristas incautos que seguem em frente, a dez quilômetros por hora, procurando
por uma faixa- do meio da pista ou lateral, que ajude a não sair da estrada.
Três
corajosos motoristas seguem, talvez sem opção de voltar, com os pisca-alertas
ligados, buscando, talvez, uma boa razão para não desistirem e entregarem-se à
Tempestade.
Antes
de Peruíbe, várias arvores que sucumbiram aos ventos estão desafiadoramente deitadas
na pista, algumas caindo em frente ao comboio dos corajosos.
O
trajeto que leva normalmente uma hora, é feito em longas três horas, que travam
as pálpebras e aguçam os sentidos para estar totalmente alerta e focado em não
sair da pista. Os ouvidos zumbem, talvez pela falta de outro som que não seja o
bater da chuva e os trovões.
Os
clarões dos relâmpagos e raios cegam na escuridão e algumas curvas são feitas com
algumas rodas no acostamento e passando por galhos caídos.
A
quase reta de Peruíbe até Praia Grande é uma piscina, onde carros aquaplanam,
como nadadores inexperientes. Melhor seria se anfíbios fossem.
A
Imigrantes é um rio com correnteza contrária ao fluxo dos veículos. As motos
sumiram da estrada, talvez estejam em algum local protegendo-se das rajadas do
vento.
No
planalto da Imigrantes vários carros param, aguardando uma melhora da
Tempestade que não chegará. Um longo comboio segue a menos de dez quilômetros por
hora. Pelo menos as marcações das pistas são quase visíveis e servem de guia
para os ainda Corajosos Motoristas.
Talvez
por estar sendo atrasada pela Serra do Mar, a Tempestade ainda não
atingiu São Paulo.
Abrir o portão e entrar na garagem parece o final de uma
maratona – os músculos retesados já não possuem energia para serem dobrados. Os esternocleidomastoideos retesados pedem por mãos macias massageantes.
A
Natureza demonstrou nesta Noite que o ser humano e sua máquina não podem derrota-la
e sim aceita-la e sobreviver aos seus ímpetos.
Na
longa ducha quente, recompor a consciência e aceitar este fato.