sábado, julho 29, 2006

Não deixe o Samba morrer.....


Não deixe o Samba morrer.....

Santos, 05.10.2005

Após 16 anos de viagens pelo Brasil, Argentina, Chile e Alemanha, volto a conviver com o Porto de Santos diariamente. Agora, com mais experiência e conhecimento sobre o desenvolvimento da infra-estrutura necessária à logística relacionada ao transporte marítimo de contêineres.

No entanto, a volta a Santos não deixa de ser chocante. Nos armazéns 2 e 3, onde antes operava os navios, só há esqueletos que servem de Gate ao Terminal Tecondi. Onde antes existiam terminais de contêineres vazios na Ponta da Praia, agora se levantam espigões, com apartamentos para a classe média que se muda de São Paulo, em busca de melhor qualidade de vida. Nesse sentido, me pergunto quando o Terminal da Libra será obrigado a não operar no período noturno devido ao transtorno que causará aos novos vizinhos. Após alguns anos, posso esperar que estes vizinhos expulsem o terminal de lá como expulsaram os de Vazios.

Lembro da cidade e do Porto de Hamburgo, Alemanha, e da comunhão existente entre a Cidade Estado e o Porto. É uma simbiose, onde a sobrevivência depende da ação conjunta e coordenada de administradores e governantes. Passeando pelo rio Elba, senti o orgulho que a cidade explicitamente demonstra, por meio do Guia Turístico, pela posse do maior e mais dinâmico porto europeu.

Penso em Santos durante o passeio e tristemente recordo do movimento da Cidade em direção ao Porto, sufocando-o, consumindo suas áreas de apoio e congestionando suas artérias viárias. Nesse momento, divago sobre o futuro do maior porto da América do Sul.

Reunido em um Wine Keller com amigos hamburgueses, perguntam-me sobre o Porto de Santos. Tento ser breve e alguns números vêm à mente de engenheiro:

- Crescimento da movimentação de contêineres entre 2003 e 2004: 20,67 %
- Movimentação de contêineres em 2004: 1.882.639 TEUs
- Quantidade de Terminais de Contêineres: 4 (Rodrimar, Tecondi, Libra e Santos Brasil);

Vale ressaltar que a Administração do Porto de Hamburgo (HHLA – Hamburger Hafen und Logistik AG) informa que seus Terminais de Contêineres movimentaram 4.6 milhões de TEUs em 2004, com um crescimento de 17,1 % em relação a 2003.

Após a primeira garrafa de vinho chileno (mais uma prova da eficiência de nossos amigos do Pacífico), os hamburgueses fazem perguntas que são delicadas:

- Como está o calado do Porto? Difícil explicar que, após alguns anos sem dragagem, procuravam-se mariscos em Santa Catarina para plantá-los no canal do Porto, servindo de medidores da movimentação da tão antiga contaminação química do leito do canal. A operação de dragagem foi retomada apenas por alguns meses, esperando-se que um calado de 12 metros fosse ao menos “oficializado” em alguns terminais. Embora tenham questionado se a dragagem seria permanente para manutenção dos 12 metros, nada existe além de promessas não cumpridas.

- É verdade que os problemas de acessibilidade aos Terminais serão finalmente resolvidos com as obras das “perimetrais” da margem direita e da margem esquerda? Foi inútil explicar que, embora todos digam que as perimetrais estão “saindo”, a questão é política e relacionada às Parcerias Público Privadas (PPPs). Penso que é um erro tentar esclarecer qualquer questão de investimentos em infra-estrutura que dependam do setor Público e tento fugir da questão, prometendo que procuraria um texto em inglês no site do Governo Federal, detalhando o que é PPP.

- Como está o desenvolvimento da infra-estrutura para contêineres vazios na retro-área do Porto? Pedi para abrirem outra garrafa de Concha & Toro já que a pergunta é delicada. Expliquei que a cidade já expulsou todos os terminais de vazios da Ponta da Praia e que os terminais remanescentes estavam tentando sobreviver na área da Alemoa. Porém, esta área está sendo alvo de “invasão” de Operadores de Granéis Líquidos, uma vez que é uma das únicas áreas com Licença Ambiental. Tal fato aumenta em muito a especulação sobre o valor do metro quadrado e torna os terminais de vazios presas fáceis para os novos Operadores. A silhueta da Alemoa já mudou e, atualmente, podem ser vistas as centenas de tanques de armazenamento e alguns poucos contêineres vazios. A tentativa de abertura de novas áreas para implantação de novos terminais de contêineres vazios esbarra na questão da harmonia Porto-Cidade. Alguns terminais buscaram novas áreas em Cubatão, porém estão com as obras embargadas, ou por questões ambientais ou por movimentos contra a “invasão” de zonas urbanizadas. Para neófitos em Transportes Marítimos, explico que os terminais de contêineres vazios são partes integrantes da cadeia logística dos contêineres, onde estes são devolvidos após a importação (ou descarga como vazios), vistoriados, reparados e liberados para exportação. Tais atividades geram empregos diretos com vários níveis de profissionalização e demandam técnicos especializados. Um cálculo rápido mostra que um terminal, que movimenta 10 mil contêineres vazios, gera, no mínimo, 300 empregos diretos.

- Se não existem áreas em Santos, para onde vão os terminais de contêineres vazios? A resposta é óbvia: para São Paulo. Eles provavelmente serão implantados na região da Grande São Paulo, com algumas conseqüências: Santos perderá vagas de emprego e o custo logístico da cadeia do contêiner vazio aumentará, sendo incorporado ao já difamado Custo Brasil.

Após a terceira garrafa os hamburgueses mudam de assunto e discutem Futebol....

Voltei.

Na semana passada, do alto do Restaurante no Clube 22, vejo a disputa do Trem da MRS com os caminhões próximos aos armazéns 2 e 3. No almoço, um colega recém chegado da China pergunta-me sobre o Porto de Santos. Quase uma repetição das perguntas de meus amigos hamburgueses. Durante a degustação de sua primeira caipirinha, ele me olha e diz: na China, quando um porto está em seu limite operacional, fazemos um novo. Simples e prático. Talvez seja um dos motivos de continuarem crescendo em dois dígitos por ano.

Na volta à São Paulo uma música resume tudo: não deixe o Samba morrer... não deixe o Samba acabar...

Penso que seria melhor cantar: não deixe o Porto morrer... não deixe o Porto acabar...

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